Way Model: por dentro de uma das maiores agências de modelos do Brasil

O método de trabalho e como funciona a ascensão de uma new face numa conversa exclusiva com Anderson Baumgatner  

Fama, flashs, um closet de dar inveja, contratos milionários, uma vida de glamour. Essa é a concepção que ronda o imaginário popular quando se fala da vida de modelo, principalmente de modelos como as do time de novas angels: Stella Maxwell, Elsa Hosk, Jasmine Tookes, Taylor Hill, Martha Hunt, Sara Sampaio e Romee Strijd. Fazer parte do time desse time de peso da Victoria’s Secret é como para um jogador de futebol assinar um contrato com um time no nível Barcelona ou Atlético de Madrid. Ou talvez até mesmo ser convocado para representar seu país na Copa do Mundo. A diferença primordial é que em tais times, serão no mínimo 11 jogadores em campo, por país.elsa-hosk-naked-vogue-spain-008

No atual valioso time da VS são 14 angels ao todo, o número máximo já contratado pela marca, que vem mudando seu estilo e tentando atingir um público mais jovem. Atualmente há duas brasileiras como angels oficiais – a última aquisição, Laís Ribeiro. Porém, para chegar até lá não é nada fácil: muito mais do que a concorrência entre as próprias modelos para se destacar no mercado, há ainda o difícil caminho de new face (novata) para ser vencido, muito trabalho, uma boa agência, e claro, uma dose de sorte. Agora você confere o meu bate-papo com Anderson Baumgatner, proprietário da mais respeitada agência do país, e também a mais disputada por quem sonha um dia estrelar seja um desfile com asas, uma grande campanha ou uma capa de revista: a Way Model.

Fundada em 2007 por Anderson e Zeca de Abreu, a Way Model Management é uma das agências mais fortes da América Latina. Com paredes cobertas por capas de seus agenciados e composites, não é necessário ser exatamente fashionista para se sentir num mar de rostos conhecidos, aqueles que você já viu em algum lugar, mesmo que não saiba exatamente o nome. São modelos que pegam a principal parte de campanhas nacionais e internacionais circulando o tempo todo, checando medidas, preenchendo fichas de casting.

Em meio a essa correria fui recebida por Anderson, ou Dando, como é mais conhecido, em plena véspera de São Paulo Fashion Week. Se apresentando nas redes sociais com a frase “O meu trabalho? Fazer supermodels’’ ele, de fato, não mente: é o responsável pelo agenciamento de nomes de peso como Alessandra Ambrósio, Candice Swanepoel e de descobertas como Marlon Teixeira (chamado nos bastidores de Gisele Bundchen de calças) e a top Caroline Trentini, hoje parte de sua família (Carol casou-se com o irmão de Dando, o requisitado fotógrafo Fábio Bartelt, em 2012). A conversa você confere a seguir.

 
CC: Quando uma modelo vem para a Way, como é o processo? A garota se interessou pela agência ou agência se interessou por ela… como é esse início de carreira?
Dando: Há várias maneiras. A menina chegou pra gente através de scouter, veio aqui pessoalmente fazer uma avaliação, ou ela mandou foto por e-mail e a gente responde para ela pedindo informações… Esses são os caminhos. Ela precisa ter uma beleza interessante, que a gente acredita. E depois disso personalidade. Na minha carreira já vi muitas meninas que são lindas, belezas que nunca vou me esquecer, mas que a personalidade não acompanhava toda essa bagagem. E já vi muitas meninas não tão bonitas se darem muito bem, por terem porte. Ela sabe o quer, ela estuda, se esforça, tem atitude. Depois de um tempinho a gente sabe exatamente a menina que vai longe e a menina que não vai.
CC: E a inserção dela no mundo da moda após essa adaptação inicial, como funciona?
Dando: Começam a fazer ensaios fotográficos, já que é através do ensaio que teremos uma imagem dela para apresentar para o mercado, para os clientes. É um processo. Se de fora, ela muda para São Paulo, que é onde elas começam o dia a dia de uma modelo de verdade, que está começando a fazer testes, conhecer clientes, conhecer fotógrafos. Trabalha com um fotógrafo que acaba gostando, é chamada novamente… Depois acaba fazendo um editorial, quem sabe automaticamente saindo uma grande revista.
CC: A idade ideal para começar, continua 16 anos, como no passado? Modelos mais velhas conseguem ainda entrar como uma new face?
Dando: Hoje, mais do que nunca, o mercado é muito amplo. Não só no Brasil, te falando mundialmente. Existem meninas de perfil fashion, que geralmente são as mais novas, mais altas e magras. E existe a cartela para clientes que farão comerciais de tv, trabalhos publicitários, ou até mesmo desfile de shopping, essas coisas. Há uma cartela de clientes variados, para todos os públicos possíveis e modelos possíveis. Se a menina tem um perfil que a gente acredita, e vemos na beleza dela uma personalidade, ela vai conquistar o espaço dela independentemente da idade.
CC: Falando da modelo que começou aos 16 anos: como é o processo de transição de moradia para São Paulo? A agência se responsabiliza por ela?

Dando: Sim.  Quando trazemos para São Paulo, ela mora no apartamento da agência. Nós temos dois apartamentos, onde elas têm governantas, horário para entrar e sair. Essas governantas ficam 24 horas por dia com elas, nunca ficam sozinhas.

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New faces Sabrina Vieira e Milena Mira, preenchendo fichas pré-casting da SPFW

Até mesmo porque são meninas, adolescentes. A gente não sabe se vai, por exemplo, sair escondido. Então é uma marcação cerrada mesmo, até ela completar 18 anos, ou até que a mãe ou pai diga “não minha filha agora vai sair do apartamento de vocês, que é cheio de regras e vai morar no apartamento que eu vou alugar para ela na cidade’’, aí a responsabilidade não é mais nossa. Mas a gente tem uma troca muito grande e que é muito legal com essas modelos, desde que chegam. Orientamos muito cada uma delas, cuidamos. Elas trabalham com beleza, então te falo abertamente: noitada não combina com modelo. No outro dia ela vai estar feia, a pele vai estar ruim. Nós passamos isso para elas o tempo todo, por isso que talvez a gente seja considerada uma agência é chata. Nós realmente somos.

CC: A transição da Way pra agências internacionais: tem um tempo mínimo pra acontecer, ou depende do interesse de fora?
Dando: Existem alguns métodos diferentes de trabalho. Tem lugar que acredita que se uma agência de fora chamou a menina, tem que mandar. Seja com uma semana de São Paulo ou um ano. Nós, não. Muitas vezes solicitam e a gente fala não, realmente seguramos. Quando se fala dela trabalhando em São Paulo, ela está concorrendo com 99% de brasileiras, e já não é tão fácil. Quando se fala de mandar uma menina para Nova Iorque, ela vai concorrer com o mundo inteiro. Precisa ir pronta, falando no mínimo um pouco inglês, ou um fotógrafo vai pedir pra ela olhar pro lado direito e ela não vai entender a instrução. A Way encara isso como queimar um cartucho, fazer a menina passar vergonha com clientes que nunca mais vão querer trabalhar com ela.
CC: Uma modelo que não se encaixa exatamente nas medidas e alturas exigidas pela indústria se destacando nas passarelas e pegando high fashion, como Sara Sampaio, Barbara Palvin, no passado Kate Moss… para ti, há alguma explicação para esse tipo de fenômeno?
Dando: É aquilo sobre personalidade, por mais que elas sejam baixinhas, elas são lindas, porém, não apenas. A Kate com 15 anos era um absurdo, uma beleza que ninguém tinha visto no mundo. Um perfil que não é tipo uma Angelina Jolie, óbvio, que até a minha mãe acharia bonita. Ela é muito cool, até hoje, e tem quarenta e poucos anos. A Sara mesmo, é uma boneca, de tão linda. Mas há muitas meninas lindas. Com toda certeza, claro que nem se compara Kate com Sara, mas onde a Sara chegou é exclusivamente graças à personalidade dela.
 
CC: Quais são os maiores mitos que não são reais na vida de uma modelo ou new face, e também numa uma agência de modelos?
Dando: O principal dentre tantos, sem dúvidas é o ‘modelos são anoréxicas’. Não é verdade.  Nenhum cliente quer pagar caro para ver sua marca relacionada à uma modelo que venda algo doente, isso é um mito muito grande. Outra coisa é a vida do glamourosa, que muitos acham que elas têm. Quando chega uma modelo aqui, na maioria dos casos a própria mãe dela acha que em uns três meses ela vai estar na capa da maior revista de moda do mundo. Não é a realidade.
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Eu e meus bloquinhos atentíssima com tudo que o Dando tem a dizer

CC: Com as mídias sociais, principalmente o Instagram, o processo de seleção da Way mudou em algo?

Dando: Não. Obviamente que hoje o Instagram é uma ferramenta muito importante para a carreira de modelo, tanto que nós cuidamos do perfil delas, para que tomem cuidado com vão postar. Não postarem coisas que de repente pode um cliente olhar e não ser legal, mas não vou aprovar uma menina por muitos seguidores. Ela tem que ter no mínimo o perfil que a gente acredite, sabe? Por exemplo, agora a Way tem o departamento talents, com influencers de redes sociais e do YouTube, mas no mínimo só os agencia se houver compatibilidade com a nossa imagem.
 
CC: Sobre as chamadas instamodels (modelos que começaram carreira por serem conhecidas no aplicativo): isso tem mudado a forma de novas modelos serem reconhecidas e selecionadas? Por exemplo, atualmente já há fichas de castings em que perguntam o número de seguidores que a modelo possui na plataforma.
Dando: Não. Acho mais provável ser o caso do cliente que estava interessado em conhecer a rede social dela. Eram castings para modelos, antes de tudo. A gente já chegou encontrar meninas pelo Instagram, por algum funcionário de repente esbarrar em um perfil interessante. Mas se aparecer uma pessoa que tenha 2 milhões de seguidores e ela não tiver um perfil que a gente acredite, nós não iremos apostar.
 
CC: Modelos como Kendall Jenner, Gigi Hadid, Hailey Baldwin: realmente alcançaram o status que estão por serem talentosas e trazerem algo novo para o mercado, ou há de certa forma um nepotismo, já que ambas vêm de famílias influentes, além de possuírem milhões de seguidores?
Dando: O caso da Kendall, que aliás é de uma agência muito amiga, parceira nossa, sim. Ela veio de um programa de reality show que é o número um de audiência nos Estados Unidos, e ela tinha os seguidores que são interessantes para a publicidade. Já a Gigi, começou como modelo. Por mais que ela tenha uma família conhecida, ela não era tão famosa. Foi uma coincidência, os dois famosos que tiveram uma filha linda e que pode ser modelo.

CC: Mas ela começou um tanto fora do padrão, você concorda?

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Julgando quem fala de instamodel mas segue todas……
Dando: Então, isso até hoje. Apesar de ter um perfil diferente, é uma menina que entrou no momento certo na moda, em que a indústria queria alguém diferente. Assim como a Kendall.  As duas eram meninas altas, bonitas, com perfil cool e a moda até mesmo se adaptou à elas. Vou ser hipócrita se te falar que elas estão fazendo esse sucesso todo por serem incríveis, e que não é pelo Instagram. Não é verdade, os seguidores, a base familiar, a influência do sobrenome ajudam, e muito.
CC: As medidas exigidas pelo mercado para a passarela geralmente sempre batem o IMC abaixo de 18, tido como não saudável para alguns médicos e nutricionistas. No ano passado ocorreu na França a votação de uma lei que pretendia barrar modelos com IMC considerado baixo na semana de moda. Como você vê isso?
Dando: Já foi comprovado por diversos estudos que IMC não significa necessariamente saúde. É tanto que em nenhum dos lugares que propuseram essa lei, conseguiram aprovar. No Brasil não deu certo, na Espanha não deu certo, na França não deu certo, porque não é isso que mostra se uma pessoa é saudável. Eu nunca vou me basear nele para saber se a menina é saudável. No dia a dia, o acompanhamento médico vai analisar isso muito melhor do que o número de IMC.
 
CC: Além das medidas exigidas para o mercado, da beleza, da personalidade: existe uma espécie de fator x que faz uma menina bombar?
Dando: É a junção. Se a menina já tem o perfil físico e vem com uma personalidade que combina muito com aquilo. O modo dela se vestir, se ela é uma menina cool, é antenada. Como ela veio de uma cidade que geralmente não é São Paulo, ou uma grande capital, é difícil chegar uma pronta, sabendo como se vestir, a roupa certa, o comportamento pra esse meio. Mas tem um dia, com o passar do tempo, que ela entra aqui e um olha pro outro. É uma impressão coletiva: “nossa, ela virou modelo”. Está com o cabelo lindo, a pele linda, com a roupa certa, com um diálogo muito legal, que expressa uma personalidade. Não tem mais aquela timidez, aquela uma coisa que trava. Tu percebe que ela vai acontecer, que ela está realmente pronta. E ela acontece.
CC: Falando da Way, quais seriam as próximas apostas como tops no mercado?
Dando: Temos algumas intermediárias que estão indo rápido, conquistando o espaço delas. A Lorena pegou campanha da Prada, fez uma temporada incrível lá fora, pegou editoriais ótimos. A Angélica Erthal vem na mesma leva, pegou campanha da Prada também, fez uma temporada internacional maravilhosa. Está na Vogue Brasil de setembro, outubro, novembro.  O Brasil começou a enxergar Angélica. São os dois nomes agora que vão estourar, sem dúvida. Temos também a Leila Zandonai, mais uma que pegou Prada super jovem com uma primeira temporada internacional ótima. A Miuccia (dona da Prada) ficou meio que sócia nossa.
CC: Quais modelos que você mais se orgulha de ter lançado?

Dando: Carol Trentini e Marlon Teixeira. A Carol chegou pra mim com 14 anos, hoje em dia inclusive é casada com meu irmão, mãe dos meus afilhados. Me orgulho muito da pessoa que ela é, da profissional que se tornou. Eu nunca, tive uma reclamação da Carol, sobre estar fora de medidas, de atraso, nada.

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Caroline Trentini | Versace S/S 18 eu poderia fazer uma igreja pra cultuar essa mulher

Ela é um exemplo. As pessoas acham que ser magra, que ser alta é o suficiente, mas não. Ela trabalha duro. Sabe exatamente o que fotógrafo x quer dela, o que estilista quer dela. Ela sabe andar pra um, sabe andar pro outro. E o Marlon é um menino da minha cidade. Conheci ele novinho, mas perdi contato. Fui revê-lo 12 anos depois, e o trouxe pra São Paulo. Fez o aniversário de 16 anos em outubro e no dia primeiro de janeiro do ano seguinte, ele estava embarcando para Paris pra fazer Dior exclusivo. E nunca mais parou.

CC: O que tornou a Way Model a agência mais concorrida e respeitada do país?
Dando: Honestidade. Nós somos muito honestos, tanto com nossos clientes, quanto com nossas modelos. A gente joga limpo com todo mundo. Nunca vou vender pro cliente uma modelo que não esteja preparada sem ele saber. Não coloco menina ‘‘crua’’ para trabalhar com um mega fotógrafo, que precisa de uma com atitude. Nem eu, nem ninguém do meu time. O pior é iludir, quando tu sabe que ela não tem condições. A recusa é como em qualquer outra profissão. De cada 100 que mandam material, ou chegam através de excursões apenas uma entra, é realmente difícil. E o amor pelo que eu faço. Na Way, o Zeca, meu sócio, vem me mostrar por exemplo um currículo de alguém que quer trabalhar aqui. Te juro que nem olho isso, ou diploma. Acho que assim como eu, tem é que gostar. Lidamos com seres humanos, com sonhos. Me realizo com elas. Para mim é como se fosse eu, e sou eu, já que o sucesso dela é o sucesso da agência. É um trabalho que me faz chegar em casa realizado. E são pessoas assim, que se sentem dessa forma, que quero ao meu lado. Não quero pessoas que simplesmente batam cartão.
CC: E a concorrência entre as agências? Acontece muito desentendimento de bastidores, de troca de agência?
Dando: Nunca trabalhei com outro meio, e estou nisso há 18 anos. A concorrência é saudável, desde que seja honesta. Mas entre as agências, acho que é uma das concorrências mais acirradas do mundo. Um fala mal do outro, quer o pior do outro. Eu não tenho nada disso. Não quero saber o que eles estão fazendo, como eles estão fazendo, qual menina tá saindo, entrando. Quero fazer o meu. O nosso. Que a Way faça. A gente tá sempre olhando só pra nossa grama, por isso ela está sempre verde. Se você olha demais pra do vizinho, não acontece.
CC: Falando da polêmica que ganhou o mundo da moda pela novela Verdades Secretas: ficha rosa. Acontece mesmo no mundo da moda?
Dando: Não tenho medo nenhum de falar. Eu nunca vi. Em 18 anos trabalhando nisso. Pode existir, mas nunca vivenciei. E nunca soube que uma modelo minha estava saindo com alguém por causa de dinheiro, e se soubesse, dispensaria ela. Com toda certeza. Na moda não existe isso. A menos que a menina venha com isso dela, de ‘eu quero casar com um homem rico’, é uma coisa dela, independentemente de ser modelo ou não. Mas uma negociação, um cafetão, um agente, vendendo ela para transar com pessoas por dinheiro eu nunca vi, e não acho que exista em grandes agências de modelos. O que existe são cafetões que denominam prostitutas como modelo. Uma prostituta se vender como modelo é bom pra ela. Aliás, aconteceu uma vez no programa da Luciana Gimenez, que eu não conheço pessoalmente, mas achei maravilhoso: uma pessoa que não sei nem o nome estava como convidada e se nomeando como modelo. E a Luciana falou: “Tu não é modelo, desculpa. Já fez Vogue, semana de moda, São Paulo Fashion Week?  Tu não é modelo, modelo é outra coisa”.

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