A arte do Haute Couture: o que é e como se sustenta o mais alto escalão da moda

As regras e o valor exorbitante do setor mais restrito do mundo fashion

Apesar de muitas marcas famosas e respeitadas no universo da moda se dedicarem apenas ao prêt-à-porter, e ultimamente ainda de maneira mais forte com o sistema ‘see now, buy now’ (que até hoje segue a dúvida: vai pegar? não vai pegar? já pegou?), o mais alto patamar da moda continua sobrevivendo, numa mistura de trabalho artesanal, arte e sonho, quase inacessível para os meros mortais. Mesmo cada vez mais enxuto, o mercado da Alta Costura ainda se mantém como o mais alto patamar da moda.

Com preço inicial de em média US$ 10 mil por peça, podendo chegar a valores como US$ 700 mil mais dinheiro do que vamos gastar em roupa durante a vida toda no caso de um vestido de casamento, para ser considerada legítima Haute Couture há toda uma regra a ser seguida. Para começar, o tal título, que tem proteção jurídica, só pode ser concedido pela Chambre Syndicale de la Haute Couture (Câmara Sindical da Alta Costura), criado por uma associação de artesãos. O sindicato foi fundado em Paris no ano de 1868, mesmo ano em que ocorreu o primeiro desfile conhecido utilizando modelos.

O título é fornecido após o cumprimento de uma série de exigências, como no “mínimo” ter um ateliê no famoso Triangle d’Or, formado pelas avenidas Montaigne, Georges V e Champs Elysées − as três principais ruas de comércio de luxo da capital francesa.

ellie
Claramente como eu agiria usando um alta costura. DON’T TOUCH! (Anna Cleveland in Elie Saab ’16)

Além disso, é necessário que o atelier empregue no mínimo uma equipe de 15 funcionários trabalhando em tempo integral, utilize primordialmente o trabalho artesanal, além de obviamente confeccionar suas peças sob encomenda, com ao menos uma prova de roupa no corpo da cliente (ou modelo), e apresentar as suas coleções publicamente duas vezes por ano, com 35 looks ou mais.

Além dos já tradicionais participantes como Christian Dior, Ralph & Russo, Giambattista Valli, Chanel, Elie Saab, Zuhair Murad, Atelier Versace, Maison Margiela, Fendi, Giorgio Armani Privé, Valentino, entre outras, há também algumas exceções que desfilam anualmente ou por temporada, por convite do próprio sindicato, podendo – ou não – se tornar um membro permanente. Como ocorreu com a convidada Vetements, que causou levando a mistura de alta costura com street-wear para a passarela O último brasileiro convidado a desfilar foi o atelier Gustavo Lins, em 2015, que ganhou o título de Haute Couture no ano de 2011.

Estima-se que atualmente há cerca de 6000 compradoras − ou colecionadoras, já que é suas peças são consideras literalmente obras de arte − no mundo todo. Dentre essas, além das obviamente herdeiras de grandes impérios, estão também em grande parte aquelas que adquiriram fortuna através do matrimônio, como a já conhecidíssima das filas A dos maiores desfiles do mundo Elena Perminova, Daphne Guinness, a escritora Danielle Steel e a hoje, também estilista de Haute Couture, Ulyana Sergeenko.

Dior-atelier-w724
Equipe da Dior decidindo detalhes da coleção. Sentindo a tensão daqui #calmagalera

Entre os maiores colecionadores do mundo, encontra-se também o editor de moda Hamish Bowles – comprador desde os 11 anos de idade (!!!) – com uma coleção de valor inestimável contando com mais de duas mil peças.

Em sua grande maioria, as clientes desse restrito mercado são mulheres de nacionalidade árabe, americana e russa. Elas, claro, são tidas como prioridade pelas marcas, e geralmente possuem sempre um atendente que se disponibilize a encontrá-las em qualquer lugar do mundo, como ocorre na famosa cena do documentário Dior and I, produzido por Frédéric Tcheng em 2014: uma das principais costureiras da marca abandona – literalmente – o até então novato na casa Raf Simons (atualmente  designer na Calvin Klein), para atender o pedido de um vestido de uma de suas consumidoras de alta costura em Londres.

Antigamente muito rentável, o sindicato responsável pelo título, segundo historiadores chegou a ser alvo de disputas da II Guerra Mundial: estava nos planos de Hitler para que se mudasse para uma sede alemã, com a intenção de arrematar o lucro e a fama mundial da moda francesa. Atualmente, fazer da semana de Alta Costura, é muito mais uma questão de vitrine e respeito no mercado, já que ela sobrevive em boa parte graças aos red carpets de eventos como o MET Gala e o Festival de Cannes (que a gente AMA!), em que usar um vestido de Haute Couture – acompanhado de uma bela joia, claro –  é quase um requisito mínimo.

 

 

2 comentários em “A arte do Haute Couture: o que é e como se sustenta o mais alto escalão da moda

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s