Para entender o universo das modelos

Os melhores livros que retratam – e destratam – o universo do proletariado da moda

Muito além das medidas 88-60-88, o universo da profissão modelo, principalmente no high fashion, é cheio competição, cobranças e muito perrengue, mesmo que durante esses, hipoteticamente a modelo esteja segurando uma Prada. Presente dado pela Miuccia. Em pessoa. Sabe, pode acontecer. E tem vários livros pra compreender a dinâmica – e a complexidade – dessa profissão.

Um dos livros que melhor retrata esse universo, de maneira divertida e cheia de detalhes pra quem morre de curiosidade sobre a vida dos backstages é o livro da modelo Micheli Provensi. O “Preciso Rodar o Mundo: as aventuras surreais de uma modelo real” traz diversas histórias de bastidores: como foi parar em sua primeira agência de modelos, dificuldades com um novo idioma, deixar a casa da família rumo ao desconhecido de uma menina que até então, apenas sonhava em viajar pelo mundo mesmo não tendo grana – daí o nome do livro.

Abordando assuntos desde aceitação na adolescência – aquela coisa de se achar a mais esquisita de todas as garotas por ser a mais magrinha e alta – driblar a antipatia da sua booker francesa, distúrbio alimentar e autoconfiança, como é o dia a dia nos trabalhos…. é quase um diário, tão fácil e gostoso de ler e difícil de não rir das situações vivenciadas por Micheli, como quando ela troca um casting  pra assistir um jogo da Copa. Era um request de Tom Ford. “Who the fuck is Tom Ford?” perguntou ela só depois de faltar, sem fazer ideia de quem era esse pro seu booker. Só depois descobriu que se tratava do estilista da Gucci e da Yves Saint

BARBARA FIALHO VSFS
Exótica ou não, Barbara Fialho está pleníssima no VSFS todo ano

Laurent na época. Ouch. Ou a cena em a autora conta o dia em que estava no salão do Kamura, quando encontrou a novata Bárbara Fialho, e falava sobre beleza exótica, a qual considerava ter – e que via em Bárbara também. “Eu não sou exótica! Sou bonita”, respondeu Bárbara. Prova que confiança é mais eu meio caminho andado, hoje Fialho é linda, rica, faz VSFS anualmente e de bônus, namora Lenny Kravitz. #gostamos

Um livro sobre supermodels e bastidores que instiga até quem não tem lá muito interesse pelo assunto: esse é “O mundo feio das mulheres lindas”, que já desperta vontade de saber mais só pela escolha genial de nome. Escrito pelo jornalista Michael Gross, ele expõe de forma escancarada os bastidores da era das supermodelos, como Cindy Crawford, Linda Evangelista, Naomi Campbell, Christy Turlington… é quase um desconstrução de todo o universo glamoroso que muitos ainda acham que se resume a profissão. Nos altos escalões é fato que dinheiro quase não significa nada de tão grande que é facilidade para obtê-lo, e talvez aí esteja o problema.

Gross relata o mundo das mais bem pagas do mundo nos anos 80 e 90 como um ambiente cheio de after party regado à cocaína, abusos, escândalos e predadores sexuais, mas não se resume só a isso. É o tipo que dificilmente seria publicado na atualidade, já que em tempos que se cobra tanto o politicamente correto, mostrar a verdade por trás delivros sobre modelos toda a pose seria fatal pra muitas, bem diferente da golden era. Ao longo de suas mais de 400 páginas, tem histórias que vão desde a chegada de Naomi Campbell para integrar a santíssima trindade das modelos junto de Christy e Linda, retratada ainda uma menina doce e em uniforme colegial — sim, difícil de imaginar — ao comportamento predador de Casablancas, um dos fundadores da Elite Model e personagem importante na ascensão do negócio de agenciamento de modelos, mas que aos 39, namorava uma new face de 13 anos. Segundo relato de uma de suas ex-funcionárias, em uma época, dos 53 nomes da Elite, apenas três teriam dito não pro homem que achava que quanto mais jovem a garota, melhor. Assustador.

O próprio Casablancas, também trouxe sua versão oficial sobre as diversas histórias que traziam seu nome, compiladas no livro autobiográfico “Vida Modelo – Aventuras e confidências do inventor de top models“. Casado com uma brasileira ex-modelo, segundo ele a mulher de sua vida, John que morou no país por muito tempo, conta como ocorreu o boom da profissão no seu ponto de vista, a explosão de modelos brasileiras quando começou o scouting aqui – ato seguido por diversas agências além da que era dono – e que resultou na era brazilian bombshell pra moda, trazendo a febre dos concursos e revelando nomes como Adriana Lima, Fernanda Lima, Ana Beatriz Barros, Alessandra Ambrósio, e claro, a uber Gisele Bündchen.

Descrita por John como “linda, e indiscutivelmente a melhor do mundo – mas que comogisele bundchen traição pessoa não se aproxima nem um pouco da figura mítica que a imprensa não cansa de pintar”, Gisele resolveu sair da agência na mesma semana em que seria eleita a nova modelo número 1 do mundo, levando ainda uma importante booker da Elite para sua nova agência IMG e anulando seu contrato, que claro, resultou em disputa judicial.

Do tipo que se gaba sem modéstia, a vida contada por John é um livro pra quem gosta mesmo do assunto. Há também o documentário “Casablancas: O homem que amava as mulheres”, disponível na Netflix. Vale lembrar que a Elite sofreu uma forte queda de mercado e danos na sua imagem após um escândalo envolvendo abuso de modelos, uso de drogas e racismo de seus diretores em uma reportagem produzida pela BBC, em 1999. A história ganhou muita repercussão, e depois a própria BBC foi processada já que parte da reportagem, teria sido fantasiosa e editada. Pouco tempo depois da exibição da matéria na TV, John, que era presidente da agência, se desligou da empresa. Seu último investimento no setor foi em São Paulo, na agência Joy. 

 

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