O efeito Prada

Um tipo restrito de passaporte fashionista que é o sonho de agências e modelos 

Entre os amantes do mundo das modelos, a frase atribuída a Sasha Pivovarova “you’ll never book prada’’ é famosa. Provavelmente de uma montagem feita por uma fã, se espalhou pelo tumbrl e viralizou. Se um dia foi mesmo dita é difícil saber, mas é fato que bookada pela grife é sinônimo vencer grande concorrência e ser levada a outro nível na carreira, virando notícia. É quase como colocar o nome num seleto grupo das escolhidas por uma fada madrinha no mundo da moda. Quando com exclusividade o feito é ainda maior e garantia de bons shows em outras temporadas, talvez até campanhas.

Durante 15 anos o casting da grife italiana foi dirigido pelo influente diretor Russell Marsh. Cair em suas graças era quase como um efeito Cinderela, mas em vez de ganhar um príncipe encantado, a escolhida ganhava páginas em editoriais em de moda e virava assunto nas rodinhas fashionistas. A troca de diretor, agora nas mãos de Ashley Brokaw, trouxe mudanças visíveis: Marsh foi dos responsáveis por introduzir a doll face era no mundo da moda, usando massivamente belezas escandinavas ou tipicamente do leste europeu. Já Ashley, por sua vez trouxe ares globais, com belezas diversificadas. A lógica utilizada no casting? A aposta no novo, e também no exclusivo foi definitivamente a fórmula que fez da Prada uma fabricante de top models.

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Uma das mais de vinte (sim,  v i n t e) campanhas de Sasha Pivovarova para Prada

O que a diferenciou das outras grifes sempre foi o ar de novidade. Enquanto muitas apostam em modelos em plena ascensão e outras já consolidadas, a grife de Miuccia cria as suas próprias. Muitas, apenas para si em contratos de absoluta exclusividade por uma temporada ou até mais, que pode ser estendida por meses e também em nível global. Isso é basicamente um “você desfila pra gente e pra ninguém mais, ok?”. O que claro, tem um bom preço e a torna alvo de desejo de revistas, fotógrafos e outras grifes. 

O fator experiência nunca foi uma exigência pra ser bookada, muito pelo contrário: por vezes é literalmente o primeiro desfile oficial da new face em questão. Ou não, necessariamente: algumas semanas de moda no currículo, mas de repente, os olhos certos pairam sob a nova favorita e tudo acontece. Existe também versão plus para as mais sortudas, um dos combos mais desejados da moda: como se não bastasse a estreia numa semana de moda, muitas vezes abre ou fecha o desfile, o que até pra veteranas ainda gera buzz. Imagine a soma desses fatores, que pra muitas não chega a acontecer nem mesmo após já consolidadas. Uma chance que  raramente é concedida para uma novata em outro lugar além da Prada. 

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Barbara Palvin e a serenidade no olhar de quem debutou Prada aos 16 anos (como ocorreu com ela em 2010)

E assim, de repente o mundo da moda se volta pra escolhida, um rosto novo em meio aos já conhecidos causando o efeito: “quem é ela?”. Os jornalistas querem saber, os concorrentes querem saber. As próprias modelos e aspirantes, também.

As tops estabelecidas na moda pós-Prada

Alguns exemplos de Prada girls que foram consolidadas na indústria são nomes de peso, como Lara Stone, Daria Werbowy, Gemma Ward, Vlada Roslyakova, Arizona Muse e a mais iconicamente ligada à marca, Sasha Pivovarova, que fez seu primeiro desfile pra marca permanecendo com um  humilde contrato de três anos de exclusividade(!) com a mesma. Claro que o efeito foi imediato na indústria e em cerca de seis meses ela foi capa da Vogue Itália, bookada pelo próprio Steven Meisel, seguindo com trabalhos como abrir DKNY, Balenciaga, Chloé, Chanel Couture, e claro,  todos os editoriais mais concorridos do mundo da moda. Sasha acumula mais de vinte campanhas Prada no portfólio. 

Em fevereiro, na semana Fall/Winter de Milão uma outra modelo também ganhou os noticiários – e a história –  ao se tornar a segunda negra a abrir um desfile da marca. O feito até então pertencia unicamente a Naomi Campbell. Anok Yai, de origem sudanesa, foi descoberta ao ser clicada durante um festival de música pelo fotógrafo Kyle Hagler, que postou o registro no instagram e boom. Em menos de dez dias a foto chamou atenção na Next, respeitada agência de modelos que assinou com a modelo, e não só abriu com exclusividade como também pegou até agora quatro campanhas da própria marca.

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Mia Brammer em campanha da Prada clicada por Willy Vanderperre

Brasileiras também têm entrado pro time nas últimas temporadas, mas o último grande feito ficou com a catarinense Mia Brammer, de 18 anos. Ela estreou para a grife de Miuccia em 2017 em grande estilo, assinando contrato global de exclusividade com a marca e desde então já acumula cinco desfiles para a grife além de campanhas. 

É fato que no tempo fugaz que vive a moda – e o mundo – a concorrência é muito maior, assim como o sucesso também: vem rápido, e às vezes, fatalmente, acaba tão rápido quanto, sendo ignorado, esquecido, substituído por um rosto novo, de proporções às vezes tão semelhantes que chegam a confundir. Bookar Prada já não tem mais o mesmo impacto como o causado na época de ouro da marca, que ocorreu nos anos 2000. Mesmo assim, a tradição de lançamento é mantida, e os holofotes sob as escolhidas, ainda brilham como poucas marcas tem o poder de fazer. Diferente do fator sorte, um tanto quanto importante no início, é a competência que faz com que esse siga aceso.

 

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